Após o 25 de Abril de 1974, aproveitando a boleia dos ímpetos de cidadania próprios do pós revolução, muitas foram as associações que emergiram na tentativa de por via dos próprios cidadãos suprirem carências de um país “ Castrado” por dezenas de anos de ditadura.
Nesse Contexto, Urgezes não fugiu a regra, e várias foram as associações que nesse período tiveram alguma relevância, destacando-se de entre elas a ADU (Associação Desportiva de Urgeses) e também a Comissão de Moradores dos Remédios, hoje extintas, mas que marcaram uma época (final da década de 70 principio da década de 80), e preencheram em Urgezes uma importante lacuna no plano Social, ao nível da cultura, do recreio e do desporto sénior e infantil/juvenil, e também, porque não referi-lo, contribuíram no plano da qualidade de vida das gentes da freguesia reivindicando melhorias várias, como alcatroamento de ruas, iluminação, saneamento básico e outras situações, hoje dadas como adquiridas mas que na altura foram de facto os primeiros “milagres” que conhecemos ao nível social.
No aspecto associativo, de espectro mais virado para a freguesia, a ADU, foi de facto quem mais marcas deixou, lançando o andebol, o cinema, o recreio, o atletismo, os torneios de futebol infantil/juvenil -uma pequena preciosidade na altura - os torneios de futebol sénior, e outras situações de muito interesse que constituíram, com toda a certeza, a semente para a qualidade do associativismo que hoje se produz na freguesia de Urgezes.
Nos meados dos anos 80, a chama da ADU começa-se a extinguir, sendo a localização o contexto de crise económica e o facto de não terem conseguido criar um símbolo identificativo da freguesia (Como uma equipa de futebol sénior) os factores determinantes no desfecho de extinção, com posteriores tentativas de reanimação que se viriam a revelar completamente frustradas.
Contextualizado que está o associativismo, vamos aos “Os amigos de Urgeses”.
Por volta de 1982 num dos torneios realizados pela ADU, ouve-se pela primeira vez o nome Amigos de Urgeses, nome dado a uma equipa participante no torneio em que os atletas eram da Rua do Monte, essa rua no consciente popular englobava vários lugares: a Cerca Velha, a Rua Comendador M.P.Bastos, o bairro Nª, Senhora de Fátima. É com gente oriunda destes lugares e de ruas designadas por Rua do Monte, que se dá a fundação dos “Amigos de Urgeses”.
Começam por participar em torneios de futebol de onze e de cinco de forma mais assídua, com um nome misto “Amigos de Urgeses”/Café Mendes, café que oferecia os equipamentos e cedia o seu espaço para sede e local de reuniões.
No dia 4 de Fevereiro de 1984, com um elenco directivo definido e presidido por Francisco Miranda, é feita a primeira inscrição de associado. Este foi o primeiro registo oficial da Associação “Os Amigos de Urgeses”. O sonho estava iniciado...
Mas não se ficou por aqui esta direcção, e a intensa participação desportiva em torneios populares a organização de eventos recreativos lançaram o nome “Amigos de Urgeses” de forma definitiva.
Por volta de 1987, depois de três anos muito cansativos pela falta de sede e de apoios, na altura eram nenhuns, o cansaço instala-se denotando-se algum afrouxamento da actividade. É aí que um dos associados mais empenhados da colectividade, José Carlos Abreu Araújo, mobiliza cerca de uma dezena de jovens, que se prontifica a continuar o caminho iniciado por Francisco Miranda. Desse grupo é João Maria Dias que emerge como presidente. Delega a António Tubal a legalização dos estatutos e em 31 de Maio de 1988 estes estavam legalizados, continua a participação desportiva com regularidade e parte para a abertura de uma sede, factor que viria ar central na vida da associação. No dia 1 de Abril de 1991 na Rua Comendador Manuel Pereira Bastos “os Amigos” abrem a primeira sede social/café, espaço este alugado. Nesse mesmo dia Alberto Pereira, dirigente, lança o primeiro jornal “Os Amigos”.
Em 1992, terminado o mandato de João Maria Dias, é Albino Pereira que inicia mais um mandato, onde continuidade era a palavra chave para o sucesso, pois, se a evolução até então era muito positiva, era necessário estabilizar o conseguido e melhorar os aspectos de intervenção mais diversificada, como a cultura, o recreio e o futebol juvenil.
É neste mandato que com muito sucesso se começa a festejar de forma envolvente o aniversário da legalização dos estatutos, com um mês de actividades consecutivas, mobilizando dezenas de associados. Inicia-se também a procura de um espaço para secretaria que viria a ser conseguido pelo seu sucessor, António Mendes, um presidente carismático que na linha dos anteriores deixou marcas profundas na colectividade. Ao assumir, definiu como prioridade conseguir algo que a freguesia perseguia à anos: "o campo de futebol”.
Com os seniores a participar no futebol popular, faz história inscrevendo logo no primeiro ano duas equipas de futebol juvenil, uma de iniciados e outra de juvenis nos campeonatos distritais da A. de Futebol de Braga, isto sem campo próprio e deslocando as equipas para Matamá, para Pinheiro e para a Valinha para treinar. No segundo ano inscrevem-se os seniores na A. F. de Braga, 3ª divisão distrital, e logo no primeiro ano tornam-se campeões. Tudo isto durante dois longos anos de treinos e jogos fora da freguesia que viriam a ser o factor primordial da reivindicação para conseguir o campo de futebol.
Campo esse que viria a ser conseguido num processo cheio de histórias rocambolescas, que infelizmente, à falta de melhor, as sucessivas juntas gostam de imitar quando as colectividades lhes fazem sombra, pelo trabalho que produzem, contrastando com o seu.
Ainda no mandato de António Mendes e sob a direcção de Francisco Lamas são iniciadas as obras de construção do campo de futebol. Antes de terminar o mandato, António Mendes é ainda brindado com o reconhecimento pelo Primeiro Ministro António Guterres da Utilidade Pública da colectividade a que preside.
Quem lhe segue é Germano da Silva, um amigo da colectividade de longa data que viria a inaugurar o campo a 12 de Outubro de 1996. Mas o seu mandato não se fica por aqui; mantém a imensa actividade, constrói mais-valias no parque desportivo e inicia uma longa batalha pela posse oficial dos terrenos onde a colectividade tem as suas obras(O que só viria a ser conseguido no mandato de Francisco Lamas). O mandato de Germano da Silva foi trabalhoso e desgastante, mas no final a obra tinha aumentado em muito, e o número de associados passava já do meio milhar.
Segue-se João Salgado, presidente jovem, dos mais jovens que pontificavam pelas redondezas. De funcionário dos “Amigos” a presidente, começa por mobilizar uma equipa muito jovem que rapidamente viria a dar frutos: inscreve a associação no RNAJ, e inicia os planos de desenvolvimento em cooperação com o IPJ. Fruto desses apoios melhora a secretaria, aumenta a multiplicidade das actividades, e torna, no plano de associativismo juvenil “Os Amigos” numa das associações mais importantes do Distrito.
O Senhor que se segue é Francisco Lamas, homem de à muito ligado aos “Amigos”, e sendo o braço direito de vários presidentes sabia-se que não deixaria os seus créditos por mãos alheias, e o seu mandato foi de facto marcante, se mais não fora conseguiu a aprovação de dois projectos de apoio governamental no valor de 400.00 Euros. Acabou a obra do parque de lazer, o bar e o espaço millenium, melhorou a iluminação, aumentou a actividade, com mais equipas, viu o nome da colectividade ser homenageado, dando nome à rua que dá acesso ao parque desportivo dos “Amigos”, e, como chave de ouro, para terminar o mandato, vê finalmente os terrenos na posse da colectividade por escritura pública.
O último presidente foi Filipe Atilano, gerente bancário e ex-oficial do exército durante oito anos. Num ano apenas pôs de pé o ATL, as escolinhas “Os Amiguinhos”, tornou a associação IPSS, recebeu a visita de um Secretário de Estado, deu lugar a um novo espaço de intervenção das pessoas aposentadas, que se realizam no apoio comunitário ajudando a gerir os projectos da colectividade.
Assim foi o passado, e assim continuará o futuro: Cheio de esperança e de vontade de trabalhar. Foi com essa esperança que, no ano de 2008, seis ex-Presidentes, (António Mendes, João Maria Dias, Germano da Silva, Albino Pereira, Francisco Miranda e Francisco Lamas) reunidos por Alberto Pereira, assumem uma presidência rotativa dos Amigos, num gesto de coragem que mostra a preocupação destes históricos dirigentes com os "Amigos de Urgeses".
Alberto Pereira, que cumpriu o mandato mais curto da história do clube, teve o grande mérito de, preocupado com a situação do clube, convidar e reunir os seis ex-presidentes para poderem assumir novamente a presidência, desta vez, em rotação ao longo dos três anos. Para além disso, conseguiu no seu mandato dar continuidade ao projecto da Creche que havia sido começado pela anterior direcção encabeçada por Filipe Atilano. Apesar de curta, esta é já uma presidência marcante.
António Mendes e Germano da Silva foram os "homens" que se seguiram - fazendo justiça à presidência rotativa que pretende dar continuidade ao trabalho feito. Seria, porém, perigoso chamar "antecessor" a Alberto Pereira, pelo motivo de que esta é um presidência diferente, em que, de seis em seis meses apenas muda a cara do líder, não a voz de liderança, que é de um grupo. Esperam-se então três anos de grande sucesso, sempre com a ideia presente que "Os Amigos" é de todos, e para todos.
De uma forma
sucinta, sem escalpelizar muitas das situações vividas, lágrimas e
risos, de viver profundamente a vida até ao tutano, viver os “Amigos”
constituíram um marco importante no plano associativo do País, havendo
já associações tentando implantar o nosso modelo de desenvolvimento.
Por tudo isso, devemos estar orgulhosos de ter aqui chegado!
Por isso mesmo, ao retratar os ex-presidentes e o seu trabalho pretende-se que este
gesto seja extensível a todos os dirigentes, treinadores, atletas,
associados, patrocinadores, instituições e amigos que com eles
colaboraram.
A história desta colectividade é um somatório de
pequenas vitórias, da valorização da amizade, da coragem, do altruísmo,
da cidadania e de uma forma de estar na vida. Ou, parafraseando Paula
Giddings “a vitoria é muitas vezes uma coisa a prazo e raramente é o culminar da coragem. O
culminar da coragem, penso eu, é a liberdade. A liberdade que vem de
saber-se que nenhum poder no mundo é capaz de quebrar-nos.
Que um espírito inquebrantável é a única coisa sem a qual não podemos
viver, que, no fundo, é a coragem da convicção que move o mundo, que
torna possíveis todas as mudanças.”